A ESCOLA DOS ANNALES – 1ª GERAÇÃO (LUCIEN FEBVRE e MARC BLOCH)  escrito em domingo 13 setembro 2009 11:29

    A insatisfação que os jovens Lucien Febvre e Marc Bloch demonstravam nas Décadas de 10 e 20, em relação à História Política, sem dúvida estava vinculada à relativa pobreza de suas análises, em que situações históricas complexas se viam reduzidas a um simples jogo de poder entre grandes homens ou países.

    A necessidade de uma História mais abrangente e totalizante nascia do fato de que o homem se sentia como um ser cuja complexidade em sua maneira de sentir, pensar e agir, não podia reduzir-se a um pálido reflexo de jogos de poder, ou maneiras de sentir, pensar e agir dos poderosos do momento. Fazer um outra História, na expressão usada por Febvre, era, portanto menos redescobrir o homem do que, enfim descobri-lo na plenitude de sua virtualidade, que se inscreviam concretamente em sua realização histórica.

    Talvez resida nessa intenção de diversificar o fazer Historiográfico a maior contribuição de Bloch e Febvre, quando, além de produzirem uma obra pessoal significativa, fundaram a Revista dos Annales, com o explícito objetivo de fazer dela um instrumento de enriquecimento da História, por sua aproximação com as ciências vizinhas e pelo incentivo à inovação temática.

    Duas personalidades, dois temperamentos, duas maneiras de abordagem do homem harmonizando-se numa combinação que possibilitou o franqueamento de fronteiras da História.

    Lucien Febvre e Marc Bloch foram os líderes do que pode ser denominado Revolução Francesa da Historiografia. No movimento dos Annales, em sua primeira geração, contou com esses dois líderes: Lucien Febvre, um especialista no Século XVI e do Medievalista Marc Bloch. Embora fossem muito parecidos na maneira de abordar os problemas da História, diferiam bastante em seu comportamento. Febvre, oito anos mais velho, era expansivo, veemente e combativo, com uma tendência a zangar-se quando contrariado por seus colegas; Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, demonstrando um amor quase inglês por qualificações e juízos reticentes. Apesar, ou por causa dessas diferenças trabalharam juntos durante vinte anos entre as duas Guerras.

    Em 1897, Lucien Febvre foi admitido na Escola Normal Superior. Era uma pequena Escola Superior, mas altamente qualificada intelectualmente. Aceitava pouco menos de 40 alunos por ano. O ensino era ministrado através de seminários de aulas expositivas, Febvre aprendeu muito com Paul Vidal de La Blache, um Geógrafo interessado em colaborar com Historiadores e Sociólogos, Lucien Lévy-Bruhl, Filósofo e Antropólogo, criador do conceito de "Pensamento Pré-lógico" ou "Mentalidade Primitiva", Émile Mâle, Historiador, um dos pioneiros a concentrar-se não na História das Formas, mas na das imagens, na iconografia, como dizemos hoje, Antoine Meillet, Lingüista, interessado nos aspectos sociais da língua. Febvre reconheceu também seu débito para com inúmeros Historiadores anteriores. Durante toda a vida expressou sua admiração pela obra de Michelet. Reconheceu Burckhardt como um de seus "Mestres", juntamente com o historiador da arte Louis Courajod. Confessa também uma surpreendente influência; a do político de esquerda Jean Jaurés, através de sua obra Histoire Socialiste de la Révolucion Française (1901-3), "Tão rica em intuições sociais e econômicas."

     Uma característica marcante e poderosa do estudo de Febvre era a introdução geográfica, que traçava um nítido perfil dos contornos a região. A introdução geográfica que era quase obrigatória nas Monografias Provinciais da Escola dos Annales da década de 60. Febvre também teve influência do Geógrafo alemão Ratzel, apesar de num debate apoiar Vidal de La Blache e atacar Ratzel, enfatizando a variedades de possíveis respostas ao desafio de um dado meio. Segundo ele, não havia necessidade, existiam possibilidades. Em última análise, não é o ambiente físico que determina a opção coletiva, mas o homem, sua maneira de viver, seu comportamento.

    A carreira de Bloch não foi muito diferente da de Febvre. Freqüentou também a Ecole Normale, onde seu pai Gustavo ensinava História Antiga. Aprendeu, igualmente, com Meillet e Lévy-Bruhl; contudo, como comprova a análise de suas últimas obras, sua maior influência foi a do Sociólogo Émile Durkheim, que iniciou sua carreira de professor na École mas ou menos na época de seu ingresso.

    Apesar de seu interesse pela Política Contemporânea, Bloch optou por especializar-se em História Medieval. Como Febvre, interessava-se pela Geografia Histórica, tendo especialização a Íle-de-France, sobre a qual publicou um estudo em 1913. Esse estudo revela que, como Febvre, Bloch pensava no tema sob a perspectiva de uma História-Problema.

    O compromisso de Bloch com a Geografia era menor do que de Febvre, embora seu compromisso com a Sociologia fosse maior. Contudo, ambos estavam pensando de uma maneira interdisciplinar. Bloch, por exemplo, insistia na necessidade do Historiador Regional combinar as habilidades de um Arqueólogo, de um Paleógrafo, de um Historiador das Leis, e assim por diante.

    O período de encontros diários, em Estrasburgo, entre Bloch e Febvre durou apenas 13 anos, de 1920 a 1933; foi porém, de fundamental importância para o movimento dos Annales, mais importante ainda pelo fato de que estavam cercados por um grupo interdisciplinar extremamente atuante. Daí a importância de realçar-se o ambiente em que se formou o grupo.

    Quando Febvre e Bloch se encontraram em 1920, logo após as suas nomeações como professor e maitre de conférences respectivamente, rapidamente tornaram-se amigos. Suas salas de trabalho eram contíguas, e as portas permaneciam abertas. Em suas infindáveis discussões participavam colegas como o Psicólogo Social Charles Blondel, cujas idéias eram importantes para Febvre, e o Sociólogo Maurice Halbwachs, cujo estudo sobre a estrutura social da memória, publicado em 1925, causou profunda impressão em Bloch. Os Reis Taumaturgos merece ser considerada uma das grandes obras históricas do nosso século. Seu tema e a crença muito difundida na Inglaterra e na França, da Idade Média até o século XVIII, de que Reis tinham o poder de curar os doentes de Escrófula, uma doença de pele conhecida como "Mal dos Reis", através do toque real, que se fazia acompanhar de um ritual com essa finalidade. Os Reis Taumaturgos foi notável em pelo menos três outros aspectos. Primeiro, porque não se limitava a um período histórico convencional da Idade Média. Segundo o conselho que mais tarde formularia em termos gerais em seu métier d’historien, Bloch escolheu o período para localizar o problema, o que significava que tinha de escrever "História da Longa duração", como foi chamada por Braudel uma geração depois. Em segundo lugar, o livro era uma contribuição do que Bloch denominava "Psicologia Religioso". O núcleo central do estudo era a História dos Milagres e concluía com uma discussão explícita do problema de como explicar que o povo pudesse acreditar em tais "Ilusões Coletivas". Observou ainda que alguns doentes retornavam para serem tocados uma Segunda vez, o que sugere que sabiam ter o tratamento fracassado, mas o fato não destruía a fé. "O que criava a fé no milagre era a idéia de que deveria haver um milagre".

    Esse tipo de discussão sobre a Psicologia da Crença não era algo que se podia esperar de um estudo histórico nos anos 20. Era um tema para Psicólogos, Sociólogos ou Antropólogos. De fato, Bloch discutiu seu livro com seu colega de Estrasburgo Charles Blondel, como também com Febvre. Um terceiro aspecto que enfatizava a importância do estudo de Bloch é o seu autor chama de "História Comparativa". Algumas comparações são feitas com sociedades distantes da Europa como a Polinésia, embora sejam feitas de passagem e com extrema cautela: ("não transfiramos os Antípodas para Paris ou Londres"). A comparação entre a França e a Inglaterra, Porém, é central no livro, os dois únicos Países em que o toque real era praticado.

    Em resumo, Bloch já utilizava, em 1924, o que iria pregar quatro anos mais tarde num artigo chamado "Por uma História Comparativa das Sociedades Européias". Nele, Bloch defende o que chama de "Uso mais competente e mais Geral" do método comparativo, distinguindo o estudo das suas diferenças, e o estudo das sociedades vizinhas no tempo e no espaço das sociedades distantes entre si, recomendando, porém, que os historiadores praticassem ambas as perspectivas.

    Febvre, O Renascimento e a Reforma. Depois de completar seu antigo projeto de Geografia Histórica, Febvre, tal qual Bloch, mudou o rumo de seus interesses para o estudo de atitudes coletivas, ou "Psicologia Histórica", como ele da mesma maneira que seu amigo Henri Berr, denominou esse tipo de trabalho.

    Essa fase de sua carreira iniciou-se com quatro conferências sobre os Primórdios do Renascimento Francês, uma biografia de Lutero e um artigo polêmico sobre as origens da Reforma Francesa, a qual descreveu com "uma questão mal posta". Todos esses trabalhos referiam-se à História Social e a Psicologia Coletiva.

    A criação dos Annales se deu logo depois da primeira Guerra Mundial, Febvre idealizou uma Revista Internacional dedicada à História Econômica, que seria dirigida pelo grande Historiador belga Henri Pirenne. O projeto encontrou grandes dificuldades, tendo sido abandonado. Em 1928, foi Bloch quem tomou a iniciativa de ressuscitar os planos de uma revista (uma revista francesa) agora, obtendo sucesso em seu projeto.

    Novamente, foi solicitado que Pirenne dirigisse a revista, contudo, em virtude de sua recusa, Febvre e Bloch, tornaram-se os editores. Originalmente chamada Annales d’Histoire Économique at Sociale, tendo por modelo os Annales de Geographie de Vidal de La Blache, a revista foi planejada, desde o seu início, para ser algo mais do que uma outra Revista Histórica. O primeiro número surgiu em 15 de janeiro de 1929.

    A obra de Bloch sobre História Rural e Feudalismo. A carreira de Bloch foi mais curta, violentamente cortada pela Guerra. Na última década de sua carreira acadêmica, escreveu alguns estudos circunstanciais e dois livros importantes.

    O melhor de seus esforços, porém, foi despendido na elaboração de seus dois grandes livros. Em primeiro lugar, seu estudo sobre a História Rural. A concepção de Bloch sobre "História Agrária", definida como "O estudo associado de técnicas e costumes rurais". O segundo estudo, La Société Féodale, é o livro pelo qual Bloch é mais conhecido. É uma ambiciosa síntese que abrange mais de quatro Séculos de História européia, vai de 900 a 1300, enfocando uma grande variedade de tópicos, muito dos quais discutidos em outras obras: Servidão e Liberdade, Monarquia Sagrada, A Importância do Dinheiro e outros. Bloch afirma que o Feudalismo não era um acontecimento único, mas antes uma fase recorrente da evolução social. De todo jeito, sua preocupação com tendências recorrente e comparações com sociedades remotas dão ao seu trabalho um caráter Sociológico mais marcante do que em outros Historiadores Franceses de sua geração. Sendo mesmo excessivamente Sociólogo para o gosto de Lucien Febvre, que critica Bloch por negligenciar análise dos indivíduos de maneira mais detalhada. Enfim, os Annales começaram como uma Revista de Seita Herética, "é necessário ser herético", declarou Febvre em sua aula inaugural, Oportet haereses esse. Depois da Guerra, contudo, a Revista transformou-se no Órgão Oficial de uma Igreja Ortodoxa, sob a liderança de Febvre os revolucionários intelectuais souberam conquistar o establishment histórico francês. O herdeiro desse poder seria Fernand Braudel (2ª Geração). por Mauro Fonseca

Referência Bibliográfica:

BURKE, Peter. A Revolução Francesa da historiografia: A Escola dos Annales 1929-1989. São Paulo. Ed. Universidade Estadual Paulista, 1991

Compartilhar

Faça um comentário!

(Opcional)

(Opcional)

error

Importante: comentários racistas, insultas, etc. são proibidos nesse site.
Caso um usuário preste queixa, usaremos o seu endereço IP (54.198.202.148) para se identificar     


5 comentário(s)

  • Viviane mailto

    Dom 07 Out 2012 01:24

    nunca li nada igual,ótimo,parabéns,é muito dificíl encontrar artigos com esse nível....

  • Leandro

    Seg 09 Jul 2012 23:47

    Me parece muito mais uma espécie de síntese com alguns apontamentos não citados (apenas com referencia generalista) do livro do Burke. Faltou um pouco de substancia nas associações e entendimento de algumas relações, principalmente no que se refere a analítica dos autores, ficando na base da descrição dos fatos e relações de influencia. Talves um pouco mais de leitura do próprio Febvre, e de algumas análises paralelas preenchesse o vazio (que me aparentou). Quanto ao fato de ser uma especie de síntese do livro de Burke, me parece preenchido apenas (e até faz isto bem) as primeiras páginas.

  • Luciano Leite mailto

    Sex 01 Jun 2012 15:26

    Gostei muito do trabalho, mais gostaria de pedir se posivel fosse um resumo da 1geração dos annales, o mais rapido posssivel, agradexido desde já Luciano Leite.

  • ZAILDE MACEDO DIAS mailto

    Seg 16 Jan 2012 23:16

    PRECISO EVIDENCIAR, AS DIFERENÇAS E SEMELHANÇAS ENTRE AS GERAÇÕES DOS ANNALES. EPOR MAIS QUE EU LEIA NÃO CONSIGO DIFERENCIAR,POR FAVOR PODERIA AJUDAR -ME?

  • Lay

    Ter 22 Nov 2011 04:58

    Muito bom =)


Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para gerp

Precisa estar conectado para adicionar gerp para os seus amigos

 
Criar um blog